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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Continuidade da Continuidade - Segunda Parte

(Continuação)

Marcos Socram


Não tivera tempo de proferir uma palavra, mas as peças começavam a se encaixar: as inúmeras saídas injustificadas de sua mulher, as marcas no pescoço e em outras partes de seu corpo e as demoras na resposta e na resolução de alguns assuntos financeiros por parte do procurador. Esses fatos não deixavam duvidas. Fora vitima de uma dupla traição. Sua mulher o traíra com o seu homem de confiança.

Aquelas constatações fortaleceram o seu senso de auto-sobrevivência. Não poderia permitir o triunfo do perverso casal. Conseguiu se esquivar do primeiro ataque precipitado de um transtornado oponente, que não poderia mais se dar ao luxo de cometer erros. Num movimento rápido, deslocou seu corpo da direção do inimigo, deixando apenas a perna direita servir de obstáculo para a iminente queda do agressor. O estrondoso tombo o fez perder o punhal. Iniciou-se ali, um desajeitado confronto corporal. Desferiram socos de todas as modalidades e houve momentos de superioridade para ambos os lados.

Passado um certo tempo, ambos os corpos já estavam entregues ao esgotamento e clamavam por uma trégua. Aproveitando-se de um vacilo de sua vítima, o procurador investiu suas mãos contra o pescoço do antigo patrão. As costas inertes no chão e os braços que tentavam sem muito sucesso impedir o estrangulamento, denunciavam uma derrota que parecia inevitável. Sua cabeça foi suspensa e logo em seguida arremessada com violência de encontro ao solo. Tudo desaparecera diante de seus olhos. Encontrava-se consciente, mas fraco demais para esboçar qualquer reação. Sentiu seu corpo mais leve. Seu oponente recuperara o punhal, desejoso por enterrar a lâmina em seu peito.

Tentava tirar proveito deste intervalo, enviando estímulos para que seu corpo respondesse. Precisava lutar desesperadamente para manter-se vivo. Seu rosto deslizou suavemente para o lado esquerdo. Sentiu um formigamento que começava na ponta dos dedos e que se espalhava por todo o corpo, devolvendo-lhe o tato. Pigmentos coloridos começavam a tomar formas cada vez mais distinguíveis. Ele estava voltando a enxergar. Um objeto se destacava dos outros elementos naquela sala. Pôde reconhecer o seu livro de romances bem ali, ao alcance de seus dedos.

A essa altura, seu desafeto já se aproximava de posse de sua arma branca. Caminhava com a confiança de que tudo terminaria em instantes. Logo estaria entregue aos cuidados, aos beijos e carícias da amante. Segurou o cabo do punhal com as duas mãos, cruzando os dedos da mão esquerda com a da direita. Ergueu os braços sobre a cabeça. Bufava como um animal selvagem. Deixou o peso do corpo cair. O punhal entre suas mãos tinha como alvo certo o peito daquele já combalido homem. Mas aquele corpo no chão não estava sem vida e isso bastava.

Num rápido e surpreendente movimento, o dono daquelas terras, segurou o livro que estava próximo e levou-o contra o peito. O punhal perfurou a capa e os primeiros episódios daquela emocionante história.

Nesse momento, seu corpo foi tomado por um vigor incontido, que contrastava com o desespero e o assombro do procurador assassino. Seu par de testículos foi violentamente atingido pelo joelho do sobrevivente. A sensação dolorosa travou-lhe o pensamento e anulou seus reflexos. Desmoronou lentamente, derrotado.
A situação mudara de figura, aproximava o seu fim. Por alguns instantes, ambos ficaram lado a lado estirados sobre o carpete ensangüentado. O silêncio misturou-se à atmosfera daquele lugar. Recobrou suas forças, desprendeu o punhal do livro, ergueu-se com dificuldade.

O homem que viera para mata-lo agora jazia sobre a penugem do tapete ornamentado. Não parecia tão ameaçador como antes. Os olhos inquietos já pressentiam o seu desfecho.

Sentiu finalmente a lâmina rasgar o seu peito. Toda a musculatura enrijeceu involuntariamente. Se pudesse gritar naquele momento, tais urros não caberiam em sua boca, tamanho sofrimento que aquela punhalada causara. Em seu lugar, escutou-se apenas um gemido abafado. Os olhos esbugalhados dilatavam-se ainda mais. A dor diminuía aos poucos, mas junto dela iam-se os sinais vitais. Um gosto metálico tocou-lhe o paladar. Logo um fluído avermelhado transbordou pelo canto da boca. Seus olhos pararam fitando o horizonte. Estava morto.

Conseguiu estabilizar-se e ficou de pé. Locomoveu-se cambaleante. Na sua mão direita, segurava o livro que o servira de escudo. Rumava na direção da verde e aveludada poltrona. Naquele momento tudo lhe parecia irrelevante: a mulher maldita que planejara a sua morte, o carpete marcado por lama e sangue, os fragmentos da estátua, o vento que circulava através das grandes janelas e o cadáver que repousava no chão daquele estúdio.

Caminhou mais um pouco, posicionou-se confortavelmente sobre a poltrona e abriu o livro. As últimas páginas estavam intocadas. Desfolhou a obra com os seus dedos doloridos, fitou o cenário por alguns instantes e se pôs a ler o final de sua novela favorita.


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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Fogo no céu

Marcos Socram


O dedo apertou o gatilho. Dedo de quem se considera o juiz e o executor. Dedo de quem está acostumado a extapolar as leis e a desrespeitar autoridades. Dedo que conta o dinheiro sujo, arrancado de almas desgraçadas, reféns do vício.


E o gatilho disparou as balas. Balas que aterrorizam e que riscam o céu. Balas que iluminam as noites apavoradas. Balas que rasgam a carne de pessoas inocentes.

E de repente o que se viu foi fogo. Uma tocha de metal, numa decadência súbita.

Olhos atônitos acompanhavam a queda inevitável.

Um som abafado se ouviu além do morro. Um grito ficou retido nos pulmões carbonizados. E ao longe, um sorriso preenchendo a boca de quem só oferece motivos para lamento e choro.


Continuidade da Continuidade - Parte 1

Como prometido, minha versão inspirada no texto de Cortazar:



Continuidade da Continuidade

Marcos Socram


Caminhou sorrateiramente os poucos metros que o distanciava de sua vítima. Suas botas, enegrecidas pela lama de uma chuva recente, carimbavam impressões e desfiguravam as imagens bem entrelaçadas de um belíssimo tapete, que se estendia por todo o estúdio. Seus dedos pressionavam violentamente contra o cabo do punhal. Sua alma estava gélida. Manifestava em seu ser, uma mistura de sentimentos que ele não podia controlar. Um misto de ódio, que fazia seu sangue ferver, e de medo, que inundava de suor as palmas das suas mãos e a superfície de sua testa.


Não conseguia afugentar da mente o contentamento decifrado no sorriso e no olhar da amante, que deixara escapar tal sentimento de sua linda face, quando ouvira de seus lábios a confirmação de que cometeria tal atentado. Em poucos instantes, poucos metros e poucos golpes, estaria tudo acabado. Não haveria de ser de outra forma.


Já se aproximara quase que inteiramente de sua presa. Sua posição lhe permitia apenas observar aquela cabeça, que reclinava pacificamente sobre o encosto da confortável poltrona de veludo verde. Verde que logo estaria tingida de uma rubra tonalidade, assim que a lâmina afiada do punhal violentasse de maneira cruel e insana o pescoço daquele homem, que apenas teimava em terminar de ler sua história, apesar dos numerosos contratempos.


Levantara sua mão esquerda a uma considerável altura. Esta seguraria firmemente uma volumosa mecha de cabelo, de modo a realizar um movimento bruto. Logo o crânio daquele homem de pouca sorte estaria imobilizado. E o seu pescoço à mostra seria um convite ao encontro do punhal de seu impiedoso algoz.


Os acontecimentos se sucediam de maneira irremediável para o seu fim. Mas a mão direita que sustentava a arma do crime esbarrou caprichosamente em uma estatueta, posicionada ao lado direito da poltrona. A estátua, uma reprodução da Vênus de Milo em padrões menores, não sustentara o baque provocado pelo movimento mal calculado do agressor. O impacto causara o desequilíbrio do objeto, antes sustentado por uma mesa de madeira lustrada fixada em uma única base. Fatalmente ocorrera o encontro da mulher sem braços com o chão.


O estilhaçar do objeto trouxe a tona um homem que se encontrava mergulhado naquele mar de palavras. O estrondo o permitiu mover instintivamente a cabeça, levando o queixo de encontro ao peito. Um movimento que, por hora, o livrara da morte. Ainda virou-se a tempo de observar seu adversário retirando o punhal do estofado da poltrona. Seus olhos alcançaram a fisionomia do homicida. Viu-se dominado pelo terror quando percebeu traços muito familiares naquela face desfigurada pela ira. Era o seu procurador. Sim era ele mesmo, que se encontrava ali, na sua frente, atentando contra a sua vida.


Continua...